Acompanhando a Cúpula Presidencial do Mercosul, recentemente realizada em Assunção, no Paraguay, na condição de Diretor de Relações Internacionais da Nova Central Sindical dos Trabalhadores, tive a nítida sensação de que o presidente Lula, ao redefinir o acordo sobre a energia de Itaipu, realizou uma arriscada manobra política com a intenção de salvar o Bloco Econômico.
Arriscada, porque sabia que o novo acordo anunciado em entrevista coletiva realizada na manhã de sábado, juntamente com o presidente Lugo, provocaria enormes críticas por parte da oposição no Brasil, baseadas na denúncia de nova capitulação na política exterior, a exemplo do ocorrido em relação à Bolívia e Equador.
Porém, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva estava de olho na posição estratégica que o Brasil ocupa não apenas no Mercosul, como na América,e no mundo, neste momento em que os Estados Unidos enfrentam forte crise que abala sua posição como líder mundial e suas presença em nosso continente.
Não podemos desconhecer o novo papel que o Brasil desempenha no cenário mundial, como integrante do chamado BRIC, juntamente com a Rússia, Índia e China que também se reflete no continente americano, especialmente no cone sul.
A negociação com o governo Lugo representava um duplo desafio. Para o Paraguai tratava-se de renegociar um tratado firmado ainda no governo do ditador sua principal riqueza, o patrimônio hídrico, tão valorizado neste momento em que aumentam os cuidados com o meio ambiente.
De parte do Brasil, após os impactos das ações unilaterais do Equador e da Bolívia, o momento era de apostar no sucesso das negociações como via de superação de impasses que colocam nosso país na incômoda posição de potência imperialista, aos moldes dos Estados Unidos.
A "Marcha de los Pueblos del Sur" organizada pelos movimentos sociais e sindicais do bloco econômico reforçou, entre outras bandeiras, a defesa da soberania energética como forma de superar as dessigualdades e viabilizar a integração do Mercosul.
O aparente sucesso das negociações beneficia o Governo Fernando Lugo que passa a contar, além da afirmação da identidade nacional, com novos e significativos recursos para enfrentar a dramática realidade social do Paraguai.
Já o presidente Lula comemora a vitória da negociação, onde possui inegável habilidade, sobre as disputas unilaterais. Situação que afirma o Brasil como líder democrático e continental neste importante momento de rearranjo geopolítico.
Sérgio Arnoud -